Resumo executivo
Não existe "eNPS de corte" para a certificação GPTW. O selo é calculado por outro índice, o Trust Index: a média de respostas favoráveis a 60 afirmações, numa escala de 1 a 5. A empresa se certifica com nota 70 ou mais, desde que atinja a amostra mínima de respondentes.
O eNPS mede outra coisa, com outra pergunta, outra escala e outra conta. Por isso não dá para converter um no outro, e um eNPS bom não garante o selo.
Este texto coloca os dois lado a lado. Mostra como cada nota se forma, por que uma não prevê a outra e o que o próprio GPTW desqualifica, e explica onde o eNPS ainda ajuda quem quer se certificar.
Os critérios citados aqui são os publicados pela central de ajuda do GPTW Brasil, consultada em setembro de 2026. A Dialoga não tem relação com o Great Place to Work, e as regras do selo podem mudar a cada ciclo. Confira sempre na fonte.
A pergunta que não tem resposta
"Qual eNPS preciso ter para ganhar o GPTW?" é uma das dúvidas mais comuns de quem começa a se preparar para o selo. Ela parte de uma premissa errada.
Nos critérios de certificação e de ranking que o GPTW Brasil publica, o eNPS não aparece em nenhum lugar. Não há faixa mínima, equivalência nem tabela de conversão. Quem vende "o eNPS que garante o selo" está vendendo um número que a metodologia não usa.
O que a certificação usa são dois critérios, e só dois:
- Amostra mínima de respondentes, calculada a partir do número de colaboradores.
- Trust Index igual ou superior a 70.
Para os rankings de Melhores Empresas Para Trabalhar, a régua muda com o porte. Até 99 colaboradores, conta só o Trust Index. De 100 em diante, entram também o Culture Audit, um questionário sobre as práticas da empresa, e o Culture Brief, com os dados estruturais da organização. Mesmo assim, o GPTW deixa claro que o foco principal continua sendo a percepção dos colaboradores.
Como a nota do GPTW se forma
A pesquisa do GPTW tem 60 afirmações oficiais. Cada colaborador diz o quanto cada uma é verdadeira, numa escala de cinco pontos:
| Nota | Resposta |
|---|---|
| 1 | Nunca é verdade |
| 2 | Na maioria das vezes não é verdade |
| 3 | Às vezes é verdade, às vezes não |
| 4 | Na maioria das vezes é verdade |
| 5 | Sempre é verdade |
Só as notas 4 e 5 contam como favoráveis. O 3 fica fora, como o 7 e o 8 ficam fora da conta do eNPS.
Para cada afirmação, calcula-se o percentual de respostas favoráveis. O Trust Index é a média desses 60 percentuais. Uma nota 72 quer dizer que, em média, 72% das respostas às afirmações foram 4 ou 5.
A última afirmação da pesquisa tem papel próprio: "Levando-se tudo em conta, eu diria que este é um excelente lugar para trabalhar". O GPTW a trata como um indicador separado, que ele descreve como um "balanço emocional" da experiência. É a média das 60, e não essa frase, que decide a certificação.
Lado a lado
| eNPS | Trust Index do GPTW | |
|---|---|---|
| Perguntas | 1 | 60 afirmações |
| Escala | 0 a 10 | 1 a 5 |
| O que conta como positivo | 9 e 10 | 4 e 5 |
| O que é descartado ou neutro | 7 e 8 | 3 |
| Subtrai os negativos? | Sim, promotores menos detratores | Não, é só o percentual favorável |
| Unidade da conta | a pessoa | a afirmação (média de 60 percentuais) |
| Intervalo | -100 a +100 | 0 a 100 |
| Onde a pergunta-síntese fica | logo no começo, idealmente | a última da pesquisa |
| Corte oficial | não existe | 70 para certificar |
A tabela já mostra que as duas notas medem coisas diferentes. Há três diferenças de construção, e cada uma sozinha basta para impedir a conversão.
Por que uma nota não prevê a outra
O eNPS subtrai, o Trust Index não
O eNPS desconta os detratores dos promotores. O Trust Index não desconta nada: conta só a parcela favorável. Uma empresa com muita gente descontente paga duas vezes no eNPS (perde promotor e ganha detrator), mas no Trust Index só deixa de somar.
A régua do positivo é mais dura num dos dois
Não existe equivalência exata entre uma escala de cinco pontos e uma de onze. Mas a mesma atitude, a de quem acha a empresa boa sem entusiasmo, costuma virar um 4 numa e um 7 ou 8 na outra. O 4 ("na maioria das vezes é verdade") já conta como favorável. O 7 e o 8 são neutros e ficam fora da conta do eNPS.
Um experimento mental mostra o efeito. Imagine uma equipe inteira de pessoas moderadamente satisfeitas, que respondem 4 a quase toda afirmação e dão 7 ou 8 na pergunta de recomendação. O Trust Index dela fica perto do topo, e o eNPS fica perto de zero. É a mesma equipe, com o mesmo clima, e dois números que contam histórias opostas. O exemplo é ilustrativo, não um dado medido, mas decorre direto da construção das duas escalas.
A unidade de análise é outra
No eNPS, cada pessoa entra uma vez. No Trust Index, a conta é por afirmação: ele é a média de 60 percentuais. Uma área muito insatisfeita com liderança pesa em várias afirmações ao mesmo tempo. Uma pessoa descontente com um único tema pesa pouco.
A conclusão é a mesma que vale para qualquer tentativa de equivalência entre escalas: converter um instrumento em outro não produz um número comparável. Dizer que "eNPS +30 equivale a Trust Index 75" é numerologia. Explicamos o problema em detalhe no artigo sobre a anatomia do eNPS.
A última pergunta e a primeira pergunta
Existe uma diferença de desenho que costuma passar despercebida, e ela explica por que a frase-síntese do GPTW e o seu eNPS nem podem ser comparados diretamente.
Uma pergunta geral feita depois de perguntas específicas chega influenciada por elas. É o efeito parte-todo, estudado desde o trabalho de Schwarz, Strack e Mai, publicado em 1991 na Public Opinion Quarterly. Quem acabou de avaliar liderança, salário e carga de trabalho responde a pergunta geral pensando no que acabou de ser lembrado.
O GPTW coloca a afirmação "levando-se tudo em conta" no fim, de propósito. Ele quer justamente o balanço depois da reflexão sobre as 59 anteriores. Isso é coerente com o que a frase pretende medir.
O eNPS pede o contrário. Ele é uma pergunta de julgamento rápido sobre a impressão geral, e por isso rende mais logo após a abertura, antes dos temas específicos.
As duas escolhas são legítimas, cada uma para o seu objetivo. A consequência prática é que a última afirmação do GPTW e o eNPS da sua pesquisa interna não são versões da mesma pergunta. Uma recolhe o balanço de quem acabou de pensar em tudo. A outra recolhe a primeira impressão.
A amostra mínima, em números
O GPTW calcula a amostra mínima a partir da planilha de colaboradores, com dois padrões:
- Certificação: 90% de confiança e margem de erro de 10,5 pontos.
- Ranking: 95% de confiança e margem de erro de 5,5 pontos.
O número oficial da sua empresa aparece na plataforma do GPTW. Para ter ordem de grandeza, aplicamos esses parâmetros à fórmula padrão de amostra para proporção, com correção para população finita. É uma estimativa nossa, não o número do GPTW:
| Colaboradores | Certificação (estimativa) | Ranking (estimativa) |
|---|---|---|
| 100 | cerca de 39 (39%) | cerca de 77 (77%) |
| 200 | cerca de 48 (24%) | cerca de 123 (62%) |
| 300 | cerca de 52 (17%) | cerca de 155 (52%) |
| 500 | cerca de 55 (11%) | cerca de 195 (39%) |
Duas leituras saem daí.
A amostra de certificação é pequena, e a margem é larga. Uma empresa que atinge só o mínimo tem uma nota com cerca de 10 pontos de incerteza para cada lado. Um 72 nessas condições não se distingue bem de um 65. Quem quer um resultado estável precisa de adesão bem acima do mínimo, e não só para passar do corte.
O ranking exige muito mais gente, principalmente em empresa pequena. Com 100 colaboradores, a estimativa passa de três quartos da equipe.
O que desqualifica, e por que isso importa para o seu eNPS
O GPTW publica uma lista do que pode levar à desqualificação da certificação e dos rankings. Entre os itens:
- tornar a participação obrigatória;
- oferecer incentivo para responder;
- influenciar respostas positivas ou mencionar metas de nota de certificação ou ranking;
- perguntar se alguém respondeu, ou monitorar quem respondeu;
- criar situação de pressão, como responder em grupo ou em horário controlado.
O GPTW informa que audita 100% das pesquisas e que também recebe denúncias dos próprios respondentes.
A lógica é a da Lei de Goodhart: medida que vira meta deixa de medir. Isso vale igual para o eNPS interno. Se a empresa transforma o eNPS em "ensaio geral" do GPTW, com meta por gestor e cobrança por nota, ela contamina os dois números ao mesmo tempo. O eNPS passa a medir a pressão, e a cultura de "responder bonito" chega à pesquisa oficial, justamente onde ela pode custar o selo.
O efeito aparece antes, no dado. Quando as pessoas aprendem que crítica tem custo, a nota sobe e a informação some, fenômeno que discutimos em quando a pesquisa piora e emite sinal verde.
Então, para que medir eNPS se o objetivo é o selo?
O eNPS não prevê o selo, mas continua útil para quem quer se certificar.
Como termômetro entre ciclos. A pesquisa do GPTW costuma ser anual. Um eNPS medido do mesmo jeito ao longo do ano mostra a direção entre uma rodada e outra, antes que o resultado oficial chegue. A lógica de medir com mais frequência está no texto sobre pesquisa anual contra escuta contínua.
Com a distribuição ao lado. Promotores, neutros e detratores, sempre. Um eNPS parado pode esconder uma equipe que está se polarizando.
Como sinal para agir, não para ensaiar. O que melhora o Trust Index é o que melhora a experiência, e o que melhora a experiência é a empresa responder ao que ouviu. A pesquisa cansa quando nada muda depois dela, como mostramos em a fadiga de pesquisa não vem de responder.
A pergunta que ajuda, então, não é "qual eNPS garante o selo". É "o que as pessoas estão dizendo que eu ainda não resolvi". A resposta para ela melhora os dois números, e nenhuma meta de nota consegue fazer isso.
Referência rápida
| Se a dúvida é | A resposta |
|---|---|
| Qual eNPS garante o GPTW? | Nenhum. A certificação não usa eNPS. |
| O que certifica? | Trust Index de 70 ou mais, com a amostra mínima atingida. |
| Como o Trust Index é calculado? | Média do percentual de notas 4 e 5 nas 60 afirmações, escala de 1 a 5. |
| Dá para converter eNPS em Trust Index? | Não. Pergunta, escala, conta e unidade de análise são diferentes. |
| O ranking usa só a pesquisa? | Até 99 colaboradores, sim. De 100 em diante, entram Culture Audit e Culture Brief. |
| Posso falar de meta de nota com a equipe? | Não. O GPTW lista isso entre as práticas que desqualificam. |
Perguntas frequentes
Referências
- GPTW Brasil: Como é calculada a nota da Pesquisa de Clima GPTW (Trust Index)?
- GPTW Brasil: Diferença entre a Declaração da Great Place to Work e a Média do Modelo GPTW
- GPTW Brasil: Qual a diferença entre Certificação e Ranking
- GPTW Brasil: Critérios e uso de dados nas avaliações dos Rankings GPTW
- GPTW Brasil: Como é calculada a amostra mínima?
- GPTW Brasil: Como evitar a desqualificação da certificação e dos Rankings
- Schwarz, Strack e Mai (1991), Public Opinion Quarterly: Assimilation and Contrast Effects in Part-Whole Question Sequences
- Reichheld (2003), Harvard Business Review: The One Number You Need to Grow
Quer ouvir o que sua equipe não diz em formulários?
Converse com a Laura e veja a escuta contínua por IA funcionando na prática.
Falar com a Laura